Chamaram de bruxa a mulher que ousou ser ela mesma?
O Dia das Bruxas passou, mas eu não poderia deixar passar a oportunidade de trazer uma reflexão sobre a figura da bruxa e a história que ela carrega. Muito além das fantasias e do imaginário místico que envolve essa data, essa figura merece ser lembrada, especialmente quando pensamos no lugar da mulher na sociedade e na construção do seu próprio valor.
Entre os séculos XV e XVII, milhares de pessoas foram acusadas, julgadas e condenadas por bruxaria em diferentes regiões da Europa. A maioria era composta por mulheres. As perseguições estavam relacionadas a crenças religiosas, disputas sociais, interesses políticos e estruturas de poder profundamente marcadas pela desigualdade entre homens e mulheres.
Mas o que havia por trás do medo da bruxa?
Ao longo do tempo, essa figura passou a representar, no imaginário popular, uma mulher associada a conhecimentos sobre as plantas, os ciclos da natureza, a cura e práticas que escapavam ao controle das instituições da época. Nem todas as mulheres perseguidas eram curandeiras ou detentoras de conhecimentos ancestrais, mas a imagem da bruxa acabou se tornando também um símbolo da mulher que não se enquadrava, que questionava e que ocupava espaços de autonomia.
Em uma sociedade na qual o conhecimento e a autoridade estavam concentrados majoritariamente nas mãos dos homens, a autonomia feminina podia ser vista como transgressão. A mulher que tinha voz própria, que questionava ou que não correspondia às expectativas sociais podia despertar desconfiança e representar uma ameaça à ordem estabelecida.
Não se tratava apenas de controlar comportamentos, mas também de definir quais mulheres poderiam ter voz, conhecimento e liberdade.
E essa história nos convida a olhar para o presente.
Quantas mulheres ainda sentem que precisam provar sua competência para serem respeitadas? Quantas diminuem a própria voz para não parecerem difíceis? Quantas escondem suas opiniões, seus desejos e suas capacidades por receio de serem julgadas?
As formas de silenciamento mudaram, mas algumas experiências ainda nos são familiares.
A mulher que se posiciona pode ser considerada arrogante. A que estabelece limites pode ser chamada de egoísta. A que conhece seu valor pode ser interpretada como alguém que se acha superior. E, muitas vezes, depois de tantas experiências de desvalorização, aprendemos a fazer isso conosco: duvidamos da nossa capacidade, buscamos aprovação antes de confiar em nossas escolhas e condicionamos nosso valor ao reconhecimento externo.
Por isso, falar sobre o resgate do valor feminino também é falar sobre autocuidado.
Não apenas aquele relacionado ao descanso ou aos momentos dedicados ao corpo, mas um cuidado mais profundo: reconhecer a própria história, respeitar os próprios conhecimentos, confiar na própria percepção e não abandonar a si mesma para corresponder às expectativas alheias.
A natureza, tão presente nas representações da bruxa, nos oferece uma bela referência. Uma árvore não precisa se parecer com outra para justificar sua existência. Cada uma possui sua forma de crescer, suas raízes e sua contribuição para o ambiente.
Talvez nós, mulheres, precisemos recuperar essa compreensão: reconhecer nossa singularidade, respeitar nossos ciclos e entender que nossa importância não depende de corresponder a um modelo único de mulher.
Neste Dia das Bruxas, podemos ressignificar essa figura que atravessou tantos séculos carregando medo, julgamentos e mistérios. Não para esquecer a história de tantas mulheres perseguidas, mas para reconhecer a força daquelas que representam a sabedoria, a autonomia e a conexão com a própria natureza.
Que possamos resgatar a mulher que confia na sua intuição, que conhece sua força, que honra seus saberes, que respeita seus ciclos e que não tem medo de seguir a própria verdade. Que possamos ser mulheres inteiras, livres e autênticas. Mulheres que não precisam diminuir sua luz para caber nas expectativas de ninguém.
E se ser chamada de bruxa significar ser essa mulher que conhece a si mesma, que honra sua sabedoria, que se conecta com a natureza e que tem coragem de viver a própria verdade, então que sejamos, sim, cada vez mais bruxas!
Que a mulher nunca mais precise esconder sua magia para ser aceita pelo mundo.

